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29-03-2019

Com um automóvel para cada três pessoas, Canguçu tem o desafio de repensar a mobilidade urbana 


Foto: Felipe Madeira/JTR Cerca de 1,8 mil veículos novos estão sendo registrados a cada ano

Com ruas estreitas e cerca de um veículo para cada três pessoas, Canguçu começa a apresentar os primeiros sinais de um desafio que irá ultrapassar administrações: a mobilidade urbana.


Segundo dados do Departamento de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran/RS), em 2007, haviam 20.653 veículos registrados e 10.594 condutores com Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no município. No final de 2018, o número saltou para 36.882 veículos registrados e 16.479 motoristas.



Dos 20.653 veículos, 18.878 são automóveis, 11,6 mil motocicletas, 1,6 mil caminhões, 1,1 mil reboques, 3,1 mil utilitários, como caminhonetes e camionetas e 387 ônibus. Segundo uma análise da Secretaria Municipal de Obras e Trânsito, em 10 anos houve um aumento de 78,5% na frota, com cerca de 1,8 mil veículos novos sendo registrados a cada ano.


Reflexo da agricultura


Para o professor de Economia da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Eliézer Timm, o crescimento pode estar atrelado ao aumento na produção da soja e o desenvolvimento da cultura do fumo no município.


Segundo ele, essa ampliação nas culturas gerou impactos indiretos na economia, em outros setores, contribuindo para o aumento da arrecadação e do número de empregos. Conforme a prefeitura, com o desenvolvimento do tabaco, Canguçu teve um aumento de pelo menos 17 vezes mais no orçamento municipal. 


“No meio deste período tivemos também uma política de amplo incentivo para a aquisição de um veículo e isso depende das políticas de juros. Hoje, a gente olha para a economia e vê uma taxa de juros baixa, mas há uma baixa ascensão ao consumo”, comenta Timm. 


Para o professor, muitas famílias atravessam um momento de pagamento de financiamento de imóveis e apresentam orçamento mais apertado para a aquisição de novos veículos, o que pode levar a uma queda no número.


“Vejo que é necessária uma nova política de incentivo na aquisição de novos veículos, não somente nas taxas de juros, mas, por exemplo, na retirada de algum imposto para que o crescimento permaneça no mesmo ritmo”, complementa o profissional. 


As demandas da comunidade


Entre as reclamações mais comuns dos motoristas estão os calçamentos de paralelepípedo. A avenida Vinte de Setembro, principal via de acesso a cidade, através da ERS-265, é o exemplo mais citado nas ruas com problemas de trafegabilidade. Veículos menores costumam evitar a via, utilizando uma rua alternativa porque o trecho leva o carro a trepidar muito. 


A rua General Osório, é um exemplo de divisor de águas. Em 2009, ela deixou de ser sentido duplo e passou a ser mão única, desde a rua Coronel Genes Bento até a rua Conselheiro Brusque. Há quem defenda que a mudança ocasionou lentidão no deslocamento. 


Para o empreendedor no ramo de alimentos, Eberson Fonseca, o problema da via está além do sentido do trânsito, mas no estacionamento oblíquo, implementado em 2014. A justificativa do Executivo, na época, para a mudança era a geração de 135 novas vagas de estacionamento. 


“Ficou muito ruim. O estacionamento normal tinha que voltar. Como a rua ficou mais apertada, não é possível ultrapassar outros veículos que acabam circulando no meio da via. O trânsito fica mais lento”, diz.  


Fonseca conta que antes de empreender no ramo de alimentos, trabalhou como transportador de peças de vestuário, visitando regularmente pelo menos 23 municípios da Região Sul. Em cidades maiores, como Rio Grande, Porto Alegre e Santa Maria, ele afirma que a sinalização é feita corretamente, diferente de Canguçu. “Aqui ninguém usa a seta, ou deixa para usar em cima da hora, isso acarreta acidentes”, acrescentando que outro problema é a consciência da população. “Tem gente que trabalha no comércio, mora no Centro e acaba indo de carro”.


Além deste, outros pontos pesam no argumento dos motoristas, como a grande maioria das ruas ser estreita para comportar estacionamento e tráfego de mão dupla. Falta de estacionamento e poucos semáforos também estão entre as demandas dos motoristas. 


Para os pedestres, os pontos mais citados foram as poucas faixas de pedestres, principalmente na rua General Osório e a ausência de um calçadão onde não houvesse circulação de veículos.


O momento é de pensar em um estacionamento rotativo


Para o secretário de Obras e Trânsito, Mauro Silveira, “a situação do trânsito no município já é caótica”. A estratégia a curto prazo é a definição de um Plano de Mobilidade Urbana para buscar readequar o sistema viário no município. 


“Hoje, com 36 mil veículos, o sistema viário já não está mais comportando o grande número de veículos. Não temos mais área de estacionamento na área central da cidade. Já é caso de pensarmos em um estacionamento rotativo, mas também é hora de se planejar melhor algumas alternativas para desafogar o trânsito”, explica. 


Segundo ele, questões pontuais como a circulação do caminhão do lixo e coleta seletiva em horários de pico, e o uso das vias principais pelo Centro de Formação de Condutores (CFC) local para treinamento de condutores, precisam ser reavaliadas. 


Embora o Plano de Mobilidade Urbana proponha questões alternativas, como uma via mista para veículos e pedestres, o secretário afirmou que a redução de calçadas - ponto levantado pela comunidade - é praticamente impossível. “O que já existe é bem difícil de conseguir mudar, porque envolve muito recurso”. 


Nas últimas semanas a secretaria promoveu uma série de reuniões com a comunidade, no interior e na cidade para ouvir sugestões para melhorias na mobilidade e na acessibilidade do município.


A ideia é que o diálogo ajude na elaboração do Plano de Mobilidade Urbana, visando tornar a cidade ambientalmente sustentável, socialmente inclusiva e gerida de maneira mais participativa.


 

Redator: Tradição Regional



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