Sexta, 10 de julho de 2026, 05:06h
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Novas leis que regulamentam a profissão de motorista devem impactar no valor dos fretes e no número de profissionais disponíveis no mercado
Ser motorista no Brasil, não é tarefa fácil. Além de enfrentar a falta de segurança no trânsito e as más condições das estradas, o profissional do volante precisa ter um coração de ferro para aguentar a distância da família e um físico de super-herói para suportar as condições dificílimas de trabalho, sem esquecer os prazos irreais para a entrega dos produtos que transportam ou para chegar aos destinos de suas linhas, no caso dos motoristas de ônibus.
Que o diga Juarez Mattuella, 56 anos, motorista há 37, casado e com um filho. “Ser motorista é muito cansativo e difícil, mas é uma profissão que vale a pena”, afirma o condutor que já é aposentado e por isso não fica tanto tempo longe da família. “Teve épocas em que eu ia quatro vezes em um ano para casa. Não era fácil, mas eu tinha que trabalhar e o retorno financeiro era muito bom. Graças a isso, pude pagar os estudos do meu filho e construir minha vida. Agora, posso ficar mais tempo em casa, mas de vez em quando ainda viajo”, diz.
Com relação ao futuro da profissão, ele prevê que esta deve sofrer um revés devido às novas leis que regulamentam a área e a falta de valorização dos profissionais. Há casos de motoristas de caminhão que acabam recebendo em torno de R$ 1.000 em um mês. “Ficou mais folgado para trabalhar, mas o motorista teria que ter também um ordenado fixo, pois não poderá mais contar com as comissões pagas pela rapidez da entrega e que faziam a viagem valer a pena”, garante.
Até pouco tempo, muitos motoristas, mesmo pertencendo a empresas com frota considerável, tinham que fazer longas viagens com poucos intervalos de descanso, ficando expostos a problemas de saúde e maiores riscos de acidente. Agora, de acordo com as novas regras previstas no artigo 67-A do CTB, o motorista deve realizar um intervalo de 11h entre um dia de viagem e outro (podendo fracionar 9/2) e fazer descansos de 30 minutos a cada quatro horas de direção. A medida está sendo questionada pelos condutores devido à inexistência de pontos de parada adequados nas rodovias e o aumento no tempo de viagem, o que - conforme apontam -, representa perda de produtividade.
Mesmo assim, segundo Mattuella, o maior problema enfrentado pelos profissionais ainda é a falta de segurança nas estradas. “Desde que eu comecei a dirigir, o número de carros nas ruas e estradas triplicou. É preciso andar na linha para evitar problemas e muita atenção”, considera, lembrando uma história curiosa vivida por ele em suas andanças pelo Brasil. “Uma vez, lá no nordeste, atropelei, sem querer, sete jegues que estavam dormindo na estrada. Foi um susto e tanto”, conta.
Da boleia para a cabine
Quem pensa que dirigir um confortável e bem equipado ônibus de passageiros pelas estradas gaúchas é uma missão simples, não conhece o dia a dia corrido e estressante dos motoristas de ônibus. Apesar de alguns receberem todo o suporte psicológico das empresas onde atuam, esses profissionais também lidam com o estresse gerado pelo trânsito caótico e pelas cobranças de pontualidade dos passageiros, sendo submetidos a condições e rotinas de trabalho que, se não forem amenizadas de alguma forma, causam doenças graves.
Além disso, a falta de profissionais na área já começa a preocupar, conforme pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT). De acordo com o órgão, há uma carência de pelo menos 50 mil motoristas profissionais para transporte de passageiros e de carga. Para tentarem evitar que essa carência se torne um problema ainda maior, tanto a CNT, como sindicatos e empresas de ônibus ou transportadoras de carga criam programas de capacitação interna e de crescimento na carreira, para formarem profissionais de outros setores nas companhias para serem motoristas.
É o caso da empresa pelotense Expresso Embaixador, pioneira no tratamento dispensado ao quadro de colaboradores. A formação interna, além de programas de reciclagem e melhoria nas condições de trabalho, através de acompanhamento psicológico, já parte da rotina dos profissionais responsáveis pelo volante na empresa. É o caso de Christian Leal da Cunha, 30 anos, funcionário da empresa que atua há oito anos como motorista de ônibus. “Para dirigir um ônibus é preciso gostar do que se faz, pois doamos boa parte do nosso tempo para isso e lidamos com pessoas, o que nem sempre é fácil”, afirma.
De acordo com ele, que faz a linha Pelotas-Porto Alegre, na estrada o maior desafio é a falta de respeito. “Hoje, o mais estressante é lidar com a falta de educação dos motoristas e confesso que se não fosse o suporte psicológico e o treinamento que recebemos da empresa, seria complicado controlar o estresse”, revela o jovem profissional, que também destaca os pontos positivos da profissão, como as amizades construídas nas estradas. “Acabamos ficando amigos dos passageiros, principalmente aqueles que viajam todos os dias com a gente, como é o caso de alguns médicos e outros profissionais que transportamos. Não há como isso não acontecer”, considera.
A visão de quem contrata
As novas regras que regularizam a profissão de motorista valem tanto para profissionais com carteira assinada como para os trabalhadores autônomos. Segundo o vice-presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas no Estado do Rio Grande do Sul (Fetransul), Milton Schmitz, a entidade apoia a regularização do Estatuto do Motorista e do descanso dos profissionais durante as jornadas de trabalho. No entanto, ele acredita que o país ainda não dispõe de infraestrutura suficiente para atender a demanda e que as medidas devem impactar nos valores cobrados ao consumidor. “Não há postos de combustíveis e nem locais adequados para garantir que os motoristas possam descansar com tranquilidade. Além disso, o custo das viagens deve subir uns 26,4% e este valor vai influenciar no preço final dos produtos”, destaca.
Aqui na região
Para Luis Antonio Moreira da Silva, 53 anos, sócio-gerente da transportadora pelotense Transmorel - há 12 anos no mercado de transportes -, a grande maioria das empresas de transporte da região apenas sobrevive, pois a quantidade de impostos cobrados é muito grande, além das multas referentes ao excesso de peso, que muitas vezes, nem existe. “Acabou se criando uma indústria de multas no país e quem deveria defender os interesses da população, se tornou mais um a explorar. Às vezes eles dizem que há excesso, mas não dão nem comprovante”, revela.
Segundo o transportador, que atua apenas com profissionais autônomos e não possui frota própria, às vezes é difícil encontrar motoristas dispostos a fazer viagens para rotas menos comuns. “Optamos por não ter frota própria porque é muito difícil encontrar funcionários dispostos a trabalhar e cuidadosos com os veículos. Além disso, a manutenção de uma frota é cara. Já tivemos a experiência de ter caminhões próprios e não foi muito positiva”, revela Silva, afirmando ainda que hoje não há transportadora na região com veículos suficientes para atender a demanda de mercado.
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