Sexta, 10 de julho de 2026, 04:39h
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Frases de para-choque perdem espaço nas estradas brasileiras
Caminhões de empresas e “fim do romantismo” tornaram mensagens mais raras
“Mulher chora na saída, caminhão na subida”. Frases como esta, pintadas em para-choques de caminhão, já foram símbolo de uma cultura popular própria dos motoristas. Hoje, as anedotas não são mais encontradas com tanta facilidade. Com temas que vão desde religião e família até mulheres - muitas vezes, com comentários machistas -, as frases de para-choque costumam ser bem-humoradas. “É a forma encontrada pelos caminhoneiros de interagir com o mundo”, avalia a professora licenciada em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema) Antonia de Fátima Farias, que analisou algumas frases em pesquisas científicas.
A jornalista e mestre em Comunicação, Tânia Olivatti, que também já escreveu sobre o tema, acredita que um dos fatores que determinou, nos últimos tempos, o desaparecimento dessa cultura foi a mudança no modelo de negócio. “Antigamente, eram mais caminhoneiros autônomos. Hoje em dia, um veículo é caro, então eles trabalham para empresas”, diz. Para ela, o caráter comercial, com propagandas da empresa estampadas nos caminhões, substituiu a tradição anterior.
Entre os anos 1970 e 1980, muitas carrocerias eram pintadas à mão, o que possibilitava a personalização. Hoje, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) não tem nenhuma norma que proíba a prática, mas uma resolução define um padrão de pintura de para-choques, o que transferiu as frases que ainda resistem para o lameiro do caminhão. “Era um lugar de expressão que eles tinham”, avalia Tânia.
Blogs e livros guardam memória
Hoje, quem trata de imortalizar as anedotas são autores de livros e gerenciadores de blogs e sites. Um deles é Amir Mattos, que publicou o livro 500 frases de para-choques de caminhão pela Editora Leitura, reeditado de maneira independente sob o título Pára-Choques. O autor também aponta o medo de que as frases sejam uma maneira de identificar o caminhão para possíveis assaltos como uma das causas para seu fim.
Existe até concurso cultural para premiar as mais criativas. Na 18ª edição do Salão Internacional do Transporte (Fenatran), em 2011, foram escolhidas três: “Viajo num Fordão, cortando o estradão, caminhão sem comparação, Ford minha paixão” (1º lugar); “Caminhoneiro não é mágico, mas vive de truck” (2º lugar) e “Minha faculdade é a estrada, e meu diploma é o caminhão!” (3º lugar).
As últimas dos para-choques pelo Brasil
Nosso amor virou cinzas porque seu passado virou fogo.
O amor começa com a filha e termina com a sogra.
Beijo é como decote, quanto mais longo melhor.
Beijo de mulher feia é pior que dentada.
Na frente de formiga, lagartixa bota banca de jacaré.
Sapo tem olho grande, mas não sai da lama.
Casamento de artista de televisão é igual telefone de repartição: não funciona mesmo.
Se casamento fosse estrada, eu só passava pelo desvio.
Chifre é igual dente, só dói quando nasce.
A tristeza do homem está na cabeça do boi.
Quando sonhares que te esqueci, reze porque morri.
Esqueça-me quando eu te esquecer, pois assim nunca me esquecerá.
Deus tira os dentes, mas reforça a gengiva.
Deus é grande e a estrada é larga.
A humildade é o último degrau da sabedoria.
Na viagem para a eternidade, ninguém pede carona.
Homem é igual pneu. Furou, troca.
O homem só dirige a mulher quando está dançando.
Em mulher e caminhão, só o dono põe a mão.
Mulher é igual circo, debaixo do pano é que está o espetáculo.
Motorista apressado é lembrado no dia 2 de novembro.
Quando se entra na contra mão, sempre aparece um imbecil na mão.
Filho de rico é playboy, filho de pobre é office-boy.
Quando rico mata o pobre, o defunto vai preso.
Não foi bem a maçã que Adão comeu.
Eu não quero saber o nome do soldado desconhecido, eu quero é o endereço da viúva.
Adoro a sogra... da minha mulher.
Feliz foi Adão que não conheceu sogra nem inflação.
Redação
Legenda: O caráter comercial, com propagandas da empresa estampadas nos caminhões, substituiu a tradição anterior
Legenda: Entre os anos 1970 e 1980, muitas carrocerias eram pintadas à mão, o que possibilitava a personalização
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