Quinta, 09 de julho de 2026, 18:07h
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O contato e a interação com o cavalo melhoram a confiança dos praticantes em si e nos outros
União entre psicoterapia e técnicas de equitação é capaz de melhorar potencialmente a qualidade de vida de pessoas com necessidades especiais
Muitos não sabem, mas o passo do cavalo é 95% similar ao de uma pessoa. Se as patas traseiras do animal fossem separadas das dianteiras, seria como se duas pessoas estivessem caminhando, o que faz com que o cavalo seja um ótimo aliado para o tratamento de pessoas com necessidades especiais com a chamada equoterapia, técnica que exige um trabalho interdisciplinar envolvendo profissionais de fisioterapia, fonoaudiologia, pedagogia, psicologia e equitação.
Os resultados são vistos nos rostos cansados, porém, satisfeitos dos familiares, mas, principalmente, no sorriso farto dos pequenos pacientes que encontram no passo comedido do cavalo uma forma de experimentar um mundo diferente do imposto por suas restrições. A equoterapia é indicada para crianças, jovens e adultos com autismo, paralisia cerebral, Síndrome de Down, Síndrome de Rett, problemas de aprendizagem e outras alterações.
Segundo o coordenador do Centro de Equoterapia da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) em Pelotas, o fisioterapeuta Ciro Gregory Sena, o contato e a interação com o cavalo desenvolvem novas formas de comunicação, socialização e melhoram a confiança dos praticantes em si e nos outros. Além disso, a noção de espaço e equilíbrio, sincronicidade e coordenação são potencialmente estimulados e reeducados durante o tratamento, que deve ser associado a fisioterapia tradicional. “Não podemos usar só a equoterapia para o tratamento dos pacientes, mas ela é importante por também estimular o lado cognitivo deles”, garante.
De acordo com Sena, a equoterapia tem se mostrado o método mais eficaz na melhora do equilíbrio, da postura e força muscular em crianças e adultos com algum tipo de deficiência, em função da semelhança entre o andar de cavalos e humanos. “Quando uma criança com dificuldades motoras está montada em um cavalo, o movimento que ela faz com o corpo é como uma imitação do movimento de caminhar, estimulando o cérebro e os músculos como um todo”, argumenta.
A procura do passo perfeito
Conforme o diretor da APAE de Pelotas, e professor de fisioterapia e equoterapia nas universidades Anhanguera e Católica de Pelotas, Victor Edgard Pitzer Neto, a escolha dos cavalos é um ponto muito importante. “Quanto mais rígida é a pessoa, maior deve ser o cavalo e menos passadas por minuto ele deve dar. Neste caso, o ‘balanço’ ao cavalgar irá relaxar os músculos e permitir um maior aproveitamento na fisioterapia”, explica Neto.
Ele destaca que para pessoas com dificuldades em manter-se eretas, o mais apropriado é um cavalo menor, com mais passadas em uma montaria dupla com um instrutor de equitação. O fisioterapeuta Ciro Sena ressalta ainda que para obter o melhor resultado, os cavalos usados pelo centro devem ter o passo certo, pois o movimento precisa ser o mais similar possível ao caminhar humano. Por isso, são especialmente selecionados, sendo a maioria da raça Crioula pela inteligência e docilidade que demonstram.
Todos os cavalos do Centro – cerca de sete - foram doados por sócios da Associação Rural de Pelotas (ARP), grande parceira da Apae. A média de idade dos animais está entre 15 e 20 anos, pois a terapia exige animais mais calmos e fáceis de lidar. Os cuidados dispensados a eles são os melhores possíveis. Além de tratamento com pasto e ração balanceada, eles precisam ser ferrados a cada 30 dias, para que não haja interferência na andadura.
Novos horizontes
O alívio veio a cavalo para Neil Anderson de Almeida Saubo, 36 anos. Ele é o único caso conhecido na América Latina de uma doença raríssima de nome complicado, síndrome de Hallervorden-Spatz, que provoca rigidez e perda muscular irreversíveis. Quando começou a fazer equoterapia - há pouco mais de um ano num centro de equoterapia de Santa André, em São Paulo - ele chegava à sessão semanal todo curvado, queixo no peito, mal conseguindo respirar.
Hoje, Neil aproxima-se com a cabeça erguida para acariciar o cavalo Snoob, montando com a coluna totalmente ereta. Sua mãe, Valdete Saubo, 57 anos, conta que foi ele quem pediu para fazer o tratamento, após ver uma reportagem sobre a terapia. Neil cursou até o segundo ano da faculdade de veterinária e tem paixão por três cês: "Corinthians, chocolate e cavalo".
Aqui em Pelotas, não é diferente. No local onde os familiares aguardam os filhos, os rostos cansados da correria diária - muitas mães chegam a pegar dois ônibus para levar seus filhos cadeirantes para a sessão de equoterapia – expressam, acima de tudo, confiança nos resultados. “Hoje ele está muito melhor do que há dois anos. Ele não tinha equilíbrio nenhum e hoje já consegue sustentar o corpo, além de adorar os cavalos”, afirma Maria Ferreira Porto, 50 anos, mãe de Kelvin, 17 anos. Ele, que é aluno da Apae, tem paralisia cerebral e há dois anos recebe tratamento gratuito no centro, uma vez por semana.
Profissionais preparados
Durante a semana, passam pelo centro cerca de 50 pacientes, dos dois aos 20 anos, a maioria portadora de alguma síndrome ou paralisia cerebral. No local, cercado pela natureza e ar puro, o tratamento foge do ambiente hospitalar e se obtém melhores resultados do que sobre um colchão. E tudo isso, sem choro ou estresse, comuns em sessões tradicionais de fisioterapia.
Lá, o tratamento é realizado de três formas, a individual, a em grupo – para crianças com dificuldade no aprendizado -, e a pré-treino, quando o paciente tem condições de realizar manobras mais elaboradas, aproximando-se da equitação tradicional. “Precisei fazer vários cursos de melhoramento e capacitação para o trabalho em equoterapia. É muita responsabilidade e o profissional deve estar preparado para lidar com portadores de necessidades especiais”, garante o instrutor de equitação e equoterapia da Apae, Albio Brito Quevedo Junior.
A sede do Centro foi erguida pela Apae em terreno cedido pela ARP em regime de comodato e toda a estrutura é mantida pela Apae, que sobrevive a partir de verbas federais e auxílio da comunidade. O custo da terapia é alto, cerca de R$ 35,00 por sessão, mas é oferecido de graça e compensado pelo retorno ao praticante, que é altíssimo. Por semana, são realizados 95 atendimentos, incluindo poucos particulares. “Se tivéssemos mais recursos, poderíamos atender mais pessoas, pois a demanda é grande. No entanto, a entidade, que depende de doações, está sempre no limite de gastos e por isso não conseguimos ampliar o serviço. Fazemos o máximo que podemos e com muita dedicação”, considera Ciro Sena.
A equipe é integrada por fisioterapeuta, fonoaudiólogo, assistente social, psicólogo, pedagoga, instrutor de equitação para equoterapia, auxiliares-guias e estagiários, todos treinados em curso específico ministrado pela Associação Nacional de Equoterapia (Andes Brasil), entidade civil com sede em Brasília que promove cursos para formar profissionais em todo o Brasil para a reeducação e a reabilitação de pessoas com deficiência e/ou com necessidades especiais. O Centro de Equoterapia da Apae em Pelotas, fica na rua Nunes Vieira, 494. Mais informações pelo telefone (53) 3223.1523, pelo email [email protected] ou no site www.apaepel.org.br.
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