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08-11-2013

Recanto de preservação da natureza


Foto: JTR O casal não realiza uma contagem de espécies de bromélias que cultiva, mas a última apuração ultrapassou 130 qualidades

Uma leve brisa, árvores altas e exuberantes misturadas a flores de todos os tipos, exalando perfumes desde os mais cítricos até os mais suaves em um espaço onde os raios de sol destacam a beleza das plantas – algumas raras, outras mais comuns - e que ainda se faz completo pelo som constante e em melodia dos passarinhos. Para aperfeiçoar o cenário harmonioso, uma casa de madeira, decorada carinhosamente, onde mora o casal de floricultores Rubem e Gecy Raupp, de 86 e 85 anos, respectivamente, e que demonstram nas plantas da Floricultura Samambaias o amor à natureza.


O paraíso leonense é conhecido em toda região. Fixados em Capão do Leão mesmo antes do município ser emancipado, o casal organizou o espaço onde cuida e comercializa as plantas há 33 anos. Até a madeira da casa onde moram foi fruto do trabalho do casal. “Esse eucalipto da casa fomos nós que plantamos”, disse o floricultor, orgulhoso. Casados há 62 anos, Rubem e Gecy cuidam as plantas como se fossem filhos, tratando desde as mais raras e procuradas para o comércio até aquelas que nascem ao acaso, semeadas por um passarinho, e mostradas com orgulho por serem um exemplar do funcionamento da natureza.



“Gosto de todas as plantas. Cada uma tem a sua beleza. O jardim tem que ser uma coisa prática. A pessoa chega aqui e explica o tipo de planta que quer, e a gente mostra as possibilidades possíveis dentro da preservação tanto das plantas quanto do jardim da pessoa”, disse Gecy, explicando ainda dos projetos para cada planta dentro de um jardim. Tanto a esposa, como Rubem, são como enciclopédias de botânica. Não há uma planta em todo o imenso espaço da qual eles não saibam o nome, o popular e o científico, além da explicação de seu funcionamento e adaptação a diferentes locais. Não há como passar pela Floricultura Samambaias sem aprender um pouco sobre ecologia e funcionamento da natureza.


O amigo Lutzemberger


A defesa e cuidado das plantas sempre foram naturais do casal. “É um gosto de criança, aprendi com a minha mãe, que era ligada na natureza, assim como a criação do Rubem”, disse Gecy. Porém, um grande entusiasta do trabalho do casal foi o engenheiro agrônomo e ambientalista José Lutzenberger, o “Lutz” para Rubem e Gecy, e que foi uma das figuras mais ativas na luta pela preservação ambiental no país.


“O Lutz nos entusiasmou muito, já trabalhávamos com plantas, mas ele nos passou muito conhecimento, coisas simples e práticas, sem sofisticação”, disse Rubem. Na Floricultura, muitas das raridades encontradas foram presentes de Lutz para o casal, como as Dikyas trazidas do norte da África, um tipo de bromélia que nasce em meio às rochas, além das palmeiras australianas. Porém, o ensino mais visível passado pelo ambientalista é a mistura de espécies na organização das plantas. “Não centralize cada variedade. Misture. A natureza é organizada, jamais simétrica. Ordem unida é para soldados. Ele nos dizia”, completou Rubem.


Para o casal, o cuidado com o meio ambiente deve ser natural, sem demais esforços, pois a plantas nascem e sabem se desenvolver sozinhas. “Se você propiciar o ambiente a que ela está habituada, ela vai se desenvolver. Não ajude demais as plantas, elas sabem viver sozinhas”, disse o floricultor, sendo a afirmação visível na prática através da qualidade das plantas em sua propriedade.


As bromélias


Grande parte da Floricultura Samambaia é para o cultivo de bromélias. A exuberância e resistência de umas das plantas mais procuradas para jardinagem sempre vêm acompanhada de uma dúvida: por possuírem uma reserva de água em seu “miolo”, a maioria das pessoas acredita que esta reserva acabe propiciando a disseminação do mosquito da dengue. Com relação ao assunto, o casal esclarece que o reservatório de água das bromélias é um poço de vida, com microflora e microfauna, os nutrientes necessários para a sobrevivência das plantas, muito diferente da água parada onde se prolifera a larva do mosquito. “Temos até um certificado da fundação Oswaldo Cruz que, através de uma pesquisa, atestou que não havia larvas do mosquito da dengue”, completou dona Gecy.


Há todo um processo para a semeação das bromélias na Floricultura. Seu Rubem mostra a pequena estufa onde acontece o processo de germinação das plantas, com a aplicação das iscas para lesmas, para explicar a produção. O casal não realiza uma contagem de espécies de bromélias que cultiva, mas a última apuração ultrapassou 130 qualidades. “Neste processo sempre escolhemos as melhores. A gente tem muita pena, mas descarta as menores, pois são demais”, completou Rubem.


O cuidado com as plantas vai além da residência do casal, que possui jardins espalhados não só por Capão do Leão, mas Pelotas e outras cidades da região. Rubem contou que as bromélias plantadas em frente ao McDonald’s da avenida Bento Gonçalves, em Pelotas, foram por ele. “Elas enormes e lindas. Mas um dia passamos lá e vi que estavam todas amarelas. Pedi para falar com o gerente e ele disse que o ‘pessoal do mosquito’ tinha estado lá e colocaram água sanitária nas plantas. Isso é falta de informação”, disse o floricultor.


Irrigação e adubo


Apesar da mistura de espécies, de acordo com os ensinamentos de Lutzemberg, a estrutura da Floricultura é bem organizada, principalmente com relação à irrigação. O local possui cinco artesianos, e o casal irriga regularmente as plantas, sempre cuidando os horários certos para este trabalho. “A gota d’água é uma lente convexa. Conforme o ângulo do sol, ela centraliza a luz e queima a folha. Podendo evitar regar nas horas de sol forte é sempre melhor. De manhã, até às 10h, e à tarde, após as 16h, pensando que o sol também não sabe do horário de verão, é o horário de regar as plantas”, explicou Rubem.


A base do trabalho na Floricultura Samambaias está no adubo produzido por seu Rubem no local. “A estrutura física é que faz ser solto assim. Ele precisa de um terço de areia, um terço de argila e um terço de matéria orgânica, assim o ar vai circular e vai reter água”, explica Rubem, explicando ainda, quase didaticamente, de outros tipos de adubo que são bons para o cultivo das plantas.


Além do adubo há outras ‘dicas’ para o bom trato dos jardins, como o plantio direto, outro ensinamento de Lutzemberg. “Chamavam ele de louco por dizer para as pessoas não capinarem um canteiro de couve, por exemplo, mas isso é por causa da lagarta, que se alimenta das plantinhas que ficam no junto da couve. Não havendo estas plantas, a lagarta se obriga a comer a própria couve. Isso é ecologia, equilíbrio natural”, exemplificou Rubem, indo além do trabalho de floricultor ao instigar um pensamento lógico sobre o funcionamento do meio ambiente.


Preservação através do ensino


Pais de um casal, de quem falam com orgulho, além dos netos e bisnetos, Rubem e Gecy transferem para as plantas os mesmos cuidados do que a um filho. “Isso foi uma sementinha na minha mão há 10 anos, e agora está aqui”, diz Rubem sobre quase todas as plantas de seu jardim. “Estamos prestando para a sociedade a nossa parte, nossa obrigação. Chame de Deus, chame de natureza ou do que quiser, mas enquanto você estiver contribuindo você fica, mas quando quiser só sugar, ela te leva”, completou.


Além do trabalho quase educacional com que trata seus clientes, o casal também sede o espaço para os professores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) aprimorarem as aulas do curso de agronomia. “O hortoflorestal da universidade não tem mais nada, só diretor”, brincou o floricultor. “Eles trazem grupos de quinze estudantes, para manter a ordem aqui dentro, e vão ensinando sobre a morfologia das folhas, além da época de entomologia, para buscar insetos. São quinze, mas apenas cinco prestam atenção, infelizmente. Realizamos também um projeto de multiplicação de orquídea por semente, em que foi até editado um livro, mas foi só isso”, completou.


Aula de ecologia, botânica e de preservação ambiental à parte, o maior ensinamento do casal é, na verdade, a orgulho do trabalho que realizam. O paraíso natural, fruto da atividade realizada com prazer, mostra que o esforço diário compensa. “A nossa parte fazemos com prazer. A pessoa que faz aquilo que não gosta está passando trabalho, isso não rende, nem para ele nem para os outros. Saímos pela cidade olhando os jardins que ajudamos a construir e as plantas que foram uma sementinha na nossa mão”, disse Rubem, seguido pela esposa: “O orgulho do trabalho é a grande recompensa”.


A Floricultura Samambaias fica no sítio São Marcos, na rua dos Jacarandás, nº 77, em Capão do Leão, próximo à entrada da Embrapa. Para entrar em contato com casal, ligue para (53) 3275-9007.


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