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Francisco Neto de Assis, fundador e presidente da Adote, trabalha há 15 anos pela conscientização da sociedade e do governo sobre a doação e o transplante de órgãos
A dor da perda de um filho ainda jovem foi o motivador para a criação de um dos mais importantes trabalhos de conscientização atuais. Em 28 de maio de 1998 faleceu Eduardo G. de Assis, após passar 165 dias esperando por um transplante cardíaco. Seu pai, Francisco Neto de Assis, fundou então, em 20 de novembro do mesmo ano, a Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos (Adote), que há 15 anos vem trazendo importantes contribuições para consolidar o processo de doação de órgãos e tecidos no Brasil.
Um mês antes de falecer, Eduardo havia criado o site DOE, com algumas perguntas e resposta sobre doação de órgãos e transplantes. Após sua morte, em sua homenagem e de sua prima Carolina – que, em fevereiro de 1997, teve morte encefálica após um acidente de carro e, mesmo com o esforço de seus familiares, não foi possível a doação dos seus órgãos – o site foi ampliado, estimulando assim a criação da Adote.
“Quando teve o processo da doença, a gente não teve onde buscar informação, a não ser com o médico, o que é uma conversa complicada, mais técnica, e que na maioria das vezes não é alcançada pelo paciente. Queríamos procurar informações que fossem de natureza médica, mas que estivessem no limite de entendimento de qualquer um”, explica o presidente e fundador da Adote, Francisco Neto de Assis. A ideia da Adote é divulgar para o maior número de pessoas informações sobre doação de órgãos, principalmente para àquelas que estão na expectativa de precisar de um transplante, sendo a organização pioneira no seu propósito, criada por pessoas sem nenhum interesse direto na causa.
A Adote é formada basicamente por voluntários, a maioria de dedicação parcial, e conta com o apoio de algumas instituições, como a Associação Comercial de Pelotas. “Desde 1999 ocupamos um espaço dentro da Associação, com um contrato por tempo indeterminado. É um apoio importante, que deu muita credibilidade para a Aliança, e sem nenhum custo, porque existe uma dificuldade em manter uma organização deste tipo, por conta das despesas, e assim conseguimos minimizar os custos do aluguel de uma sala”, afirma o presidente.
Na última quarta-feira (20), os 15 anos de promoção de mudanças de atitudes e valores da sociedade e do Estado para preservar e melhorar a vida foram homenageados em uma Audiência Pública, proposta pelo vereador Ricardo Santos, na Câmara de Vereadores de Pelotas. Com a presença do presidente da casa, Ademar Ornel, da coordenadora da Comissão Intra-Hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) do Hospital São Francisco de Paula, Ivana Brum, a representante da Central de Transplantes do Estado, Kátia M. Brodt, a representante do Banco de Olhos do Hospital Escola UFPel/FAU, Liliana Costa, do presidente da Adote, acompanhado de Leonardo Campos, também da organização, além do vereador proponente e outros vereadores e deputados, foi debatida a importância do trabalho já realizado pela Adote, principalmente na região sul.
Segundo o vereador Marcus Cunha, presente na Audiência em homenagem a Adote, o trabalho de infraestrutura hospitalar para a realização de transplantes já cresceu com o apoio da Aliança, mas ainda pode melhorar. “A importância da Adote para a região é indiscutível”, completou, colocando ainda, a Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores de Pelotas, da qual é presidente, à disposição da organização. Já o vereador Marcola complementou a homenagem dizendo que “tanto a tarefa de conscientizar quanto o gesto de doar ajudam a salvar uma vida”.
Mesmo com ampla atuação em Pelotas e nas cidades da redondeza, a Aliança levou sua marca e ideias para outros estados brasileiros, criando Seções Regionais para ampliar o trabalho de incentivo e conscientização subordinadas à sede, possuindo uma Diretoria Regional. “Desde o início a gente previa no estatuto em criar seções regionais, que inicialmente seriam extensões da Adote, e hoje são praticamente franquias. Estamos em quatro estados – Pará, Mato Grosso, São Paulo e Rio de Janeiro –, e hoje a marca, o nome e o estatuto são usados, mas cada uma tem sua estrutura jurídica própria. É uma franquia que não precisa ser comprada”, diz Assis.
O site da Adote – www.adote.org.br – é um dos principais meios de disseminação de informações sobre doações e transplantes. “O site hoje tem cerca de 50 mil acessos no mês, e recebemos mensagens, praticamente todos os dias, de pessoas que têm dúvidas sobre o processo de doação e transplante, e a gente responde prontamente”, afirma o presidente. Além do site, a Aliança trabalha junto à Central de Transplantes do Estado, através do apoio na realização de atividades, como o curso de treinamento de coordenadores de transplante, em que parte do material didático utilizado na ação foi produzido pela Adote. “Temos também uma ação voltada a estudantes, que iniciou em 2005, quando fomos convidados pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre [UFCSPA] para ministrar uma aula para os alunos e acabamos voltando todos os semestres, trazendo, inclusive, a mesma atividade para a UCPel, UFPel e FURG. Esta disciplina em Porto Alegre foi a primeira a tratar sobre doação de órgãos em uma faculdade de medicina no país”, completa Assis.
O problema da infraestrutura
Além da homenagem durante a Audiência Pública realizada na quarta-feira, foi debatida também a situação dos hospitais de Pelotas. Segundo Assis, o município tem quatro hospitais habilitados para captar órgãos, porém, na área de transplante falta infraestrutura, sendo perdidos doadores por este motivo.
O maior debate, no entanto, foi em torno do Banco de Olhos do Hospital Escola da UFPel, certificado desde 2006 para realizar transplantes de córnea através de um projeto da Adote, em parceria com o Rotary Princesa do Sul, que doou cerca de R$ 122 mil para a compra de um microscópio específico para a cirurgia de transplante de córneas, além de outros equipamentos, como freezer e estufa. “Como Banco, ele atua bem, captando todas as córneas na região, mas como transplantador, deixa a desejar. Foram realizados três transplantes apenas, sendo que um foi em Porto Alegre, que é um resultado muito pequeno em relação ao tempo que o equipamento está no hospital”, diz Assis.
De acordo com a representante do Banco de Olhos do Hospital Escola UFPel/FAU, Liliana Costa, a carência nos transplantes se dá pela falta de mais estrutura para a realização do procedimento. “Os médicos querem uma assistência mais qualificada. Aumentamos a qualidade na captação, porém estamos falhando nos transplantes. Agora, esperamos conseguir tudo que foi listado pelos médicos para suprir a assistência necessária na área”.
Segundo o presidente da Adote, perdem-se muitos doadores por falta de estrutura hospitalar. “Temos que conscientizar o governo para que se maximizem as estruturas capazes de viabilizar os transplantes através das doações de órgãos”, afirma, dizendo ainda que não adianta conscientizar a população e a família, se a estrutura para a captação de órgãos e a realização de transplantes não estiver funcionando adequadamente. “Não basta querer ser doador, você tem que ter a oportunidade de doar”.
Educação e conscientização
Buscando mais do que a infraestrutura hospitalar necessária para a doação e o transplante de órgão, a Adote também busca formas de manutenção do trabalho de conscientização. Além das atividades dentro de universidades, a Aliança procura alternativas para uma educação mais direta, dentro das escolas. “A gente ainda não tem pernas para desenvolver algo que envolva todas as escolas, mas disseminamos a ideia de que este assunto deva ser tratado já no início do ensino fundamental, porque é a melhor forma de conscientizar as pessoas para a questão. Não podemos criar apenas uma legislação que obrigue as escolas a incluir o tema no currículo, deve ter um trabalho de capacitação dos professores para isso”, explica Assis.
Ainda como trabalho dentro da área educacional, na próxima semana a Adote irá realizar o VI Fórum de Discussão do processo de Doação e Transplante de Órgãos em Pelotas. “Este é o segundo ano em que teremos a participação de estudantes. Já temos sete trabalhos inscritos, com o tema ‘O que fazer para aumentar o número de doadores’. Assim eles desenvolvem ações e projetos de promoção para doação de órgãos”. Durante o Fórum, será resgatada a história da doação de órgãos e dos transplantes nos 15 anos de vigência da lei 9.434/97, além de buscar alternativas para o aumento no número de doadores de órgãos.
Para tirar qualquer dúvida sobre transplantes e doações de órgãos, ou conhecer mais o trabalho da Aliança, acesse o site da Adote (www.adote.org.br), compareça à sede que fica na rua Sete de Setembro, nº 274, 7º andar, sala 5, no prédio da Associação Comercial de Pelotas, ou entre em contato pelo telefone (53) 3222-9010 ou e-mail [email protected]. E lembre-se “ser doador não é apenas permitir que partes de nós, em vida ou após a morte, passem a ser partes de outros. É também doar nossas aptidões pessoais e profissionais para tornar possível a vida de muitos, através dos transplantes”.
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