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Entre 1911 e 1916, foram produzidos mais de 2 milhões de toneladas de blocos de rocha, o que dá a impressionante média de 360 mil toneladas por ano, algo que jamais voltou a se repetir
Quando em dezembro de 1909 a Compagnie Française du Port de Rio Grande do Sul começou a preparação para extração do granito de uma vasta pedreira existente no interior de Pelotas, não poderia imaginar a importância histórica e social que teria para o povo daquela pequena localidade, hoje conhecida como Capão do Leão. Dono da 2º maior bloco de granito basáltico do mundo, com aproximadamente quatro km de extensão, o município deve muito do seu desenvolvimento e crescimento à instalação da companhia no chamado Cerro do Estado, pois junto vieram muitas benfeitorias para a região.
Para começar, foram construídas pequenas casas de madeira que serviam como abrigo aos vigilantes e como apoio logístico às primeiras máquinas que começaram a chegar. Em seguida foram abertas duas estradas de acesso à pedreira – as atuais ruas João Batista Gomes e Manoel dos Santos Victória. A companhia também construiu uma usina termoelétrica para gerar a energia necessária, além de um ramal ferroviário com 7 km de extensão, até chegar a um entroncamento na localidade do Teodósio, para transportar o granito até Rio Grande – onde seria usado na construção dos molhes da praia do Cassino e do porto - através de uma ‘Maria Fumaça’.
Após um inicio conturbado pelos problemas e dificuldades em vencer a geografia do terreno, somente em novembro de 1911, após todos os trabalhos de instalação, iniciaram-se as obras de exploração da rocha. “A pedreira era avançada para o período. Contava com usina elétrica, carpintaria, ferraria, enfermaria, balança, guindastes, repartições administrativas, almoxarifado, galpões para os trens e máquinas importadas, algo inovador no Brasil”, explica. Dias revela que entre novembro de 1911 e abril de 1916, foram produzidos 2.183.052 toneladas de blocos de rocha, o que dá a impressionante média de 363.842 toneladas por ano, algo que jamais voltou a se repetir.
O certo é que a então pouco povoada vila de Capão do Leão – que em 1910 possuía pouco mais de 710 habitantes – foi a maior beneficiada pela vinda da companhia. Prova disto, é que em 1921, após a saída da companhia em 1919 por decisão do Governo Estadual, a localidade possuía 915 habitantes permanentes, crescimento considerado alto para os padrões da época. “Capão do Leão sofreu um crescimento econômico e social profundo. O carvão, que era um produto utilizado largamente em função dos trens e da caldeira, era adquirido de fornecedores locais, fora outros serviços”, afirma Dias. Segundo ele, entre as décadas de 1920 e 1925, a produção da pedreira – agora sob a jurisdição do Estado - foi expressiva, mas não alcançou os ótimos índices da companhia francesa.
Altos e baixos
Após 1926 - quando uma companhia norte-americana, com sede na Argentina, assumiu a exploração da pedreira, com autorização do então governador Borges de Medeiros – a estrutura existente no Cerro do Estado começou a entrar em declínio, devido ao sucateamento das instalações e maquinários, o que forçou o governo a rescindir contrato com a empresa e reassumir o controle do local, em 1939. “Naquele ano, entre burocratas e operários contavam-se somente 53 funcionários. É pouco se considerarmos que havia as atividades de extração de pedra, administração, manutenção e conservação da linha férrea, carpintaria, ferraria, caldeira, usina elétrica, almoxarifado, trem e oficina”, considera Joaquim Dias.
Após a retomada da pedreira, o local ainda passou por uma reestruturação durante as décadas de 1940 e 1950. É dessa época a construção da praça e da capela em honra à Santa Luzia; a fundação do clube Fluminense FC, sucessor dos antigos Grêmio Americano e Ipiranga; o estabelecimento do Grupo Escolar Faria Santos – primorosa obra arquitetônica construída com pedras lavradas por graniteiros; e a reforma geral das casas de moradia e instalações. Além disso, o Estado ampliou a gama de produtos oferecidos e, em consequência, o mercado consumidor.
Durante a década de 1960, a pedreira entrou numa nova fase de decadência, em decorrência do desinteresse do Estado com a manutenção da sua estrutura física e humano, além das constantes parcerias com particulares que acabavam apenas explorando o local, sem investir em benfeitorias. Apenas em 1970, quando duas empresas envolvidas em empreendimentos de grande vulto na região se instalaram no Cerro, é que o local viveu novamente uma fase mais estável, sendo que desde então vem passando por altos e baixos, servindo sempre como fonte de material para as reformas necessárias nos molhes e porto de Rio Grande.
“A partir de 1987, em decorrência das dificuldades enfrentadas pela autarquia responsável pela pedreira [a DEPRC], até o maquinário existente no Cerro, começou a ser transferido para Rio Grande, culminando na desativação da linha férrea em 1993”, resume o historiador Joaquim Dias. De acordo com ele, o que ficou claro para a comunidade é que a pedreira do Cerro do Estado não iria mais ser explorada por uma autarquia pública. No máximo, os serviços de limpeza e vigilância continuariam. A partir de então, a pedreira, por seu incontestável legado cultural, econômico e histórico, passou a ser vista através de uma nova ótica: o seu potencial turístico.
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