Domingo, 19 de julho de 2026, 00:37h
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Um causo
Um dia, um capincho e eu
Numa destas sextas-feiras de verão, eu e meus companheiros, na verdade dois: o Nanato e o Toninho, emalamos as tralhas e “largamo”, fincado para ponte do Império, no rio Piratini.
A ló largo o tempo vai nos engolindo um a um, é a vida... Essa crônica é sobre um tempo de ouro que passou e eu fiz parte dele. A saudade dói, machuca a alma, mas para os que ficam, as boas lembranças são na verdade um lenitivo.
Pintado na correnteza, traíra no água pé, noite afora na expectativa, caçarola no braseiro, gordura fumegante na espera. É agora...
Lembranças do dr. Antônio (Toninho), que partiu nas asas do vento, padrinho dos meus filhos, ufólogo. Mãe brasileira no bom sentido da palavra - Reinaldo Medeiros (Nanato), irmão de tudo, que continua junto a nós.
Acampamento pronto, um suco de coca com canha, uma rodela de limão e já transbordou a ideia de fisgar a mãezona, uma traíra tipo 5-6 quilos, fora as gramas de quebra, sonho de qualquer pescador. Na caçarola de ferro, um arroz de carreteiro brumando, atiçando o paladar, a fumaça desenhando coisas da vida que não voltarão, falando de filhos, nos amigos, saudade danada dos que já se bandearam para São Pedro. Fim de tarde, o sol vai sumindo no horizonte e não tem como escapar daquele aperto no coração, parece que o mundo vai acabar, a mataria silencia, o silêncio pesa, oprime.
Naquele momento eu estava só, sentado na barranca do velho Piratini, linha a mão, quando de repente, um tchbum na água, alguns metros acima e silêncio absoluto, na expectativa, dei de mão no trinta, a água se abriu bem na minha frente e surgiu aquele par de olhos negros como a noite, ficou me olhando num misto de medo e curiosidade. Devia estar pensando: “O que este intruso faz no meu reino?”. Te juro, entendi aquele olhar. Silenciosamente, olho no olho, num relance, pedi desculpa pela intromissão e me afastei ouvindo um bufido forte, talvez de agradecimento.
Era um capincho, o intruso era eu
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