Domingo, 19 de julho de 2026, 00:35h
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Um amigo disse que tinha chegado aos 85 anos e estava no tempo de morrer. Achando que era brincadeira, perguntei o por quê: “meu pai morreu aos 85. E morreu bem. Minha mãe se arrastou até os 93 e definhou...”. Por trás daquilo que alguns julgaram ser um ataque de rabugice estava uma grande verdade: a própria natureza coloca limites na conservação do corpo, em todos os sentidos.
Pode haver exceções. Embora esta seja a regra: ao passar dos 85, mais facilmente começa a se perceber os sinais do envelhecimento, com a debilidade do físico, nem sempre acompanhada da debilidade do espírito. É este desafio que se coloca para a medicina, assim como para profissionais e familiares que acompanham o idoso.
Quem conviveu ou convive com pessoa idosa sabe o quanto é difícil aceitar o fato de não conseguir realizar certas tarefas e precisar de amparo porque a memória lhe prega peças. Há casos em que a pessoa é dócil e, então, a tarefa é mais fácil, embora não menos penosa. Porque quando se restringem os movimentos também começam as restrições da vida social. É a finitude toldando o horizonte da própria vida.
Da experiência com meus pais aprendi muito, especialmente que tudo o que foi apreendido pode ir por água a baixo e necessitar de revisão no dia seguinte. Munir-se de paciência, carinho, companheirismo e solidariedade é regra que impede a soberba, de infantilizar ou coisificar o idoso, mas também de que, na nossa própria perspectiva, o envelhecimento é certo e a morte um futuro que não se tem como descartar.
Quando me perguntaram por que procurei uma pessoa idosa da qual passei afastado a maior parte da vida, já não tinha mais dúvida: hoje, não exercendo função pública, não pode me beneficiar financeiramente e nem em prestígio. Gosto de estar com ela porque fez muito pela minha formação e o que faço satisfaz uma parte das suas necessidades, assim como o meu sentimento de ser, de alguma forma, útil.
A utilidade de um idoso é a sua própria inutilidade. A solidão, em qualquer idade, mas especialmente na velhice, é a negação do direito de ter ao lado alguém que não quer nos empurrar ou puxar, mas apenas estender a mão. Da forma mais elementar de que viver é a repetição incessante de atos que nos comprovam que há sentido até o derradeiro sopro de vida. Exatamente porque ainda somos amados.
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