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2019-04-05 Um longo caminho na escuridão...

Os antigos falavam em “males do coração”. A psicologia evoluiu e hoje se sabe que do coração - literalmente falando - não brotam os sentimentos, mas é um órgão que precisa ser cuidado e se contenta em recolher o sangue, limpar e devolver para a intrincada rede de proteção aos organismos. A metáfora do que se faz com o cérebro, para onde se gostaria de recolher o que envelheceu ou passou por um transtorno, fazer uma “limpeza” e enfrentar as ruas de cara limpa...

Mas não é assim que acontece. Nos últimos dias ouvi a história do marido que acompanha a esposa com Alzhaimer. De figura central na família - organizada e capaz de liderar todos os momentos mais importantes vividos pelo grupo - passou a se debilitar até a depressão. Entender o tempo da impotência - nos raros instantes de lucidez - era penetrar em olhos onde o abismo da dor somente aprofundava a solidão.

Após uma palestra, a senhora se aproximou. Sua história era parecida com a que passei com a mãe. A diferença é que só percebi que a mãe estava “apagando” no último instante, quando ficou olhando para meus olhos até que já não tivesse mais vida. Da outra mãe, foram muitos os dias em que sentou ao lado, com os olhos da idosa sobre os seus, em uma ânsia por compartilhar, ainda, resquícios de vida.

Também a história da menina que não fechou o quadro dos seus problemas. Tendo a mãe permanentemente ao lado, junto à depressão com dupla personalidade e bipolaridade. Nos momentos de crise se autoflagela. Mesmo que nas sessões de terapia tenha entendido seu lado acarinhado por toda a família, fala mais alto aquele que diz ser uma inútil, ninguém gosta dela, melhor dar um fim ao seu sofrimento...

Como diz a campanha: “tudo começa pelo respeito”. Respeito a quem não consegue lidar com a dor sozinho, mas também do familiar, que precisa de cuidados para que não adoeça. Os transtornos físicos, afetivos e emocionais que se testemunha já existem há muito tempo. Somente agora pesquisadores evoluíram para diagnósticos mais precisos. Mas ainda se está longe de encontrar curas definitivas para a coletividade. Precisam tratar do indivíduo e, junto, daqueles que os acompanham.

A menina que não entendia o que se passava ouviu da mãe o grito de todo o cuidador: “fica comigo, filha”, lutando para não se entregar, que a medicação faça efeito e a terapia funcione. O olhar apagado de quem percorreu longo caminho na escuridão e se esforça por ver um sinal de luz, registrado no lamento de quem se apega a quem usa o amor como remédio para todas as feridas: “dói, mãe, dói muito, não me abandona!”

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Manoel Jesus

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