Domingo, 19 de julho de 2026, 00:37h
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O espaço era bem adequado. Em plena avenida Dom Joaquim - point de jovens e adultos em tardes de sábado para jogar conversa fora e chimarrão - integrantes da Associação de Pais e Amigos de Jovens e Adultos com Deficiência (APAJAD) realizaram evento para mostrar o quanto a arte faz à cabeça.
Expuseram o fruto do seu trabalho: garrafas pet recicladas, transformadas em casas de passarinhos, pintadas e identificadas, com o intuito de que ficassem nas árvores do local.
O poder público municipal não teve sensibilidade para negociar. Negou a colocação ao longo da avenida, sem mesmo com uma contraproposta do tipo: colocamos durante algum tempo, retiramos, depois o pessoal leva para o pátio de suas casas - já pedi a minha. Resultado, quem passou por lá recebeu as casinhas de presente e acompanhou atividades de capoeira.
Nos últimos 40 anos, houve um aumento da expectativa de vida do especial. Deixou a qualidade de "doentinho" para jovem e adulto que pode ocupar o espaço social a que tem direito porque é capaz de ser produtivo e cidadão que não merece ser tratado como de segunda categoria. No entanto, as estruturas sociais não se adequaram. Motivo pelo qual, passada uma certa idade, não têm a quem recorrer para ocupação.
Na ausência do Estado, entrou a Associação. Pais e responsáveis por jovens e adultos especiais, juntamente com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), formataram um atendimento que tem alcançado repercussão, havendo o aumento da procura por vagas. Na esteira desta busca, uma certeza: o especial quer o mesmo que todos querem - respeito, aceitação e carinho.
O preconceito ainda existe. Assim como na discriminação de cor, gênero ou religião, segrega o que é diferente. Produzir casas recicláveis para pequenas aves pode ser considerado insignificante. Mas quem viu a postagem das fotos daqueles que participaram do trabalho sabe o que envolve: motivação pessoal, trabalho em grupo, perspectiva de entregar à sociedade o fruto do seu trabalho.
Os organizadores levaram para a avenida um belo pensamento: o direito de sonhar com a liberdade de voar pode não ser apenas um sonho. Os pais (especialmente as mães guerreiras que peitam o universo para defender seus filhos) sabem que se puderem apenas "andar" já se inscrevem entre as conquistas que marejam olhos.
Valeu a pena o desgaste, abrir mão da própria vida para usufruir da atenção e carinho que eles sabem dar tão bem, porque comprovam que o preconceito é a maior das deficiências que uma pessoa pode ter. E deste mal, certamente, eles estão livres.
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