Domingo, 19 de julho de 2026, 00:37h
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No início do século passado, a Inglaterra era o império “onde o sol nunca se punha”. Reinava a rainha Vitória (1837 a 1901), já idosa, quase no fim, cercada pela tradição, a pompa e a circunstância que envolvia a realeza. Segundo o filme “Victoria e Abdul, o confidente da rainha”, uma vida enfadonha e sem graça.
A mulher mais poderosa do mundo era rodeada de tantos cuidados que perdeu o sentido do seu próprio cargo e da vida. Surge, então, um indiano, muçulmano, que a encanta. Ele também encantado diante da nobreza, luxo e poder, mas, sabendo valorizar pequenos gestos, ressignificados e reencarnados pela força do carinho.
Em cenas que mostram um pouco da História (perdão professor Sérgio da Cruz Lima), a rainha reaprende a escrever seus próprios textos, conhece uma nova língua e, amparada por um homem de outra raça e de outra cor, lança-se na aventura de sair do protocolo estabelecido e experimenta novos sabores gastronômicos.
A sabedoria de Abdul não vem do conhecimento de economia, política ou relações internacionais, mas da própria vida. Oriundo das camadas populares, valoriza o ser humano, o que a natureza lhe oferece e tem uma fé que permite se colocar com tranquilidade diante da existência - sua e dos outros - assim como da morte.
O filme é “levinho” e mostra momentos de carinho intenso. Um deles, quando a rainha Vitória vê em Abdul um mestre com o qual ainda tem muito o que aprender, assim como ouve dos sabores e costumes de uma terra distante. Almas conectadas não por teorias ou discursos, mas pela simplicidade de poucas palavras e de muitos gestos.
A rainha conhece o chão em que pisa, mas o indiano não. A soberana sabe que é um terreno movediço e cheio de armadilhas criadas pelo preconceito. Abdul quer apenas servir à mulher pela qual já demonstrava respeito e consideração, mesmo que de longe. Vivem intensamente o tempo que restava a Vitória.
Embora o filme se baseie nos diários encontrados de Abdul, não creio que sua pretensão seja estritamente com a História. Também passa a sensação de que as épocas mudam, no entanto, com mais ou menos oportunidades, o que faz alguém feliz não é a sua posição social, status financeiro ou capacidade de poder.
A solidão pode ser companheira diante de toda uma corte, mas um desconhecido dá novas cores a um mundo já necrosado. Mesmo sabendo que, em uma ocasião, o indiano mentiu, sua presença é suficiente para pulsar novamente um coração. Acompanhada, ou não, a razão de existir está em redescobrir pessoas, sensações e gestos de carinho. Sorver da vida o que ela tem de melhor, “viver e não ter a vergonha de ser feliz!”
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