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As cores começavam a desaparecer enquanto o sol se punha no final de tarde. O branco da fumaça do fogão à lenha singrava os céus, numa prece silenciosa que se perdia no infinito. O silêncio somente era cortado pelas machadadas cadenciadas que interrompiam a contemplação da Primavera, na certeza de que a lenha era boa e que o friozinho da noite se transformaria em aconchego na cozinha, de onde já se podia sentir o cheiro de janta.
Ao transpor a porta, o lampião sendo aceso e as crianças, brincando no chão, ao redor da mesa, erguiam os olhos: “bênção, pai”. Olhar de felicidade sobre os meninos que se divertiam com seus bois, cavalos e ovelhas feitos com pedaços de milho, onde as pernas eram pequenos gravetos e os olhos os grãos de milho, feijão ou arroz: “Deus te abençoe, meu filho”.
É a única lembrança que tenho do interior de Canguçu, onde passei minha infância até os quatro anos. Talvez um pouco misturado com nossas voltas, onde meus segundos pais: Tio Ciano e Tia Toninha repetiam o mesmo ritual, que incluía ligar o rádio a pilhas e ouvir os programas tradicionalistas de rádios da capital, a intervalos onde as ondas fugiam e nossa imaginação tinha que completar as falas e as melodias!
A noite terminava relativamente cedo, pois estávamos cansados das muitas atividades diárias. No aconchego dos colchões de palha de milho, havia ruídos da noite transformados em acalentos para nossos sonhos, que começavam a se esvanecer ainda na madrugada ao primeiro canto de um galo, o início da atividade dos pássaros, na beira do morro, ou das galinhas no pátio.
Ir para a cozinha significava encontrar uma bacia pronta para a primeira higiene, um fogão aceso esquentando o leite da primeira refeição e um rosto amigo sorrindo com um bom dia e a certeza de que, nesta etapa da vida, estávamos protegidos e dispensando qualquer pressa em enfrentar o futuro: o presente era uma bênção que Deus dava para a inocência daqueles que não precisavam de mais nada para, apenas, serem felizes!
20-11-2012 - 20h53min
ana maria, de goiania goias-RS, disse:
sou goiana,me senti uma das crianças do seu texto! muda a região ,mas a posia é universal...quantas noites e manhãs da minha infancia foram assim! abraços
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